Incerteza em Saúde

Publicado por 25 de Agosto de 2022 em

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“Doutora, o que é que eu tenho? Qual é o melhor tratamento? Vou ficar curado?’” 

Respostas assertivas a todas essas dúvidas são, quase sempre, impossíveis.  Isto porque, na tentativa de orientar um paciente, há muitas variáveis a serem consideradas, desde os componentes biológicos do processo saúde-doença, até o sistema de valores de cada paciente.  

Incertezas são inerentes aos cuidados com a saúde. Há dúvidas sobre o diagnóstico e, por isso, partimos sempre de hipóteses diagnósticas. Estabelecido o diagnóstico principal, o prognóstico e a escolha da melhor conduta também são permeados por incertezas. No exercício das profissões da saúde sempre haverá, portanto, dúvidas razoáveis em relação à efetividade e à segurança de qualquer intervenção diagnóstica, terapêutica ou preventiva. 

O que é incerteza? 

Podemos definir “incerteza” como uma percepção subjetiva de ignorância, uma experiência cognitiva desencadeada pela conscientização de que o conhecimento sobre um evento ou um fenômeno é insuficiente [1]. Um sujeito estará num estado de incerteza sempre que reconhecer que as informações disponíveis sobre um aspecto qualquer da realidade são tão limitadas que desencadeiam sentimentos de dúvida, vulnerabilidade e até mesmo de impotência para a tomada de decisão.  

De modo geral, as incertezas decorrem da indeterminação de um evento futuro, e estão relacionadas a duas dimensões: assunto (do inglês, issue) e fonte (do inglês, source) [1]. Em relação ao assunto, o próprio objeto abordado pode apresentar problemas decorrentes da incompletude do conhecimento científico (problemas conceituais, de categorização ou de síntese) ou da dificuldade da aplicação prática desse conhecimento [2].  

Fontes de incerteza 

Em relação à fonte, as incertezas podem ser originadas por situações complexas, ambíguas ou probabilísticas [1].   

Complexidade 

A complexidade é um atributo da área da saúde. O bom cuidado em saúde deve abordar um agravo por diferentes ângulos, já que, aos desafios do conhecimento e da aplicação prática postos pelo próprio assunto, se somam numerosas variáveis inerentes ao relacionamento profissional-paciente. Por exemplo, a maneira pela qual diferentes pacientes irão assimilar o problema e as particularidades do sistema de saúde no interior do qual se dá o cuidado, amplificam a complexidade e são fontes de incertezas para o profissional, para o paciente ou para ambos.   

Ambiguidade 

A ambiguidade é uma situação na qual estimativas nítidas sobre um evento futuro são impossíveis ou muito difíceis de serem estabelecidas. Nesses casos, as evidências produzidas a partir da análise do conjunto de informações disponíveis são questionáveis em relação à sua confiabilidade ou à sua adequação. Há extensa corroboração empírica para o fato de que as situações de ambiguidade geram uma apreciação pessimista dos riscos e, muitas vezes, paralisam o sujeito diante de uma decisão a ser tomada [3]. 

Probabilidade 

Na probabilidade, a incerteza decorrente da indeterminação de um evento futuro é expressa em estimativas numéricas bem definidas. Nessas situações, há uma confiança maior em relação às evidências e uma apreciação mais clara do balanço riso/benefício. Muito embora cálculos probabilísticos possam aumentar ainda mais a complexidade do problema, quando comparadas às situações de ambiguidade, as situações de probabilidade tendem a amenizar a angústia de uma tomada de decisão.  

A MBE e a incerteza  

O movimento da “Medicina Baseada em Evidências” (MBE) preconiza que a síntese das melhores evidências científicas norteie a decisão clínica. A proposta é substituir a tradição, o relato anedótico e o raciocínio dedutivo pelas evidências oriundas de estudos clínicos de qualidade, combinadas à experiência clínica e às necessidades e desejos do paciente [4]. A ideia principal é abordar e, talvez em alguns casos reduzir, as incertezas. A meta do movimento é esclarecer a complexidade (por meio de uma apresentação compreensível dos conceitos e de uma boa organização da informação) e, sempre que possível, transformar situações de ambiguidade em probabilidade, tornando mais bem informada, e possivelmente menos angustiante, a tomada de decisão. 

Conclusões 

Por mais bem planejado e conduzido que seja um estudo, e mesmo uma detalhada síntese de todos os estudos relativos a determinado problema, é impossível eliminar por completo as incertezas relativas a qualquer objeto de estudo.  Isto porque a verificação experimental, cerne do método científico, emprega uma lógica indutiva, na qual parte-se da observação repetitiva de eventos específicos para se chegar a uma relação geral de causa e efeito.  E é da natureza da lógica indutiva propor conclusões prováveis, jamais certezas, o que faz com que o conhecimento científico seja sempre probabilístico e provisório. Assim, a ciência, na saúde e alhures, não busca a certeza; mas pode, ao submeter hipóteses teóricas ao mundo concreto e observável, reduzir, ou ao menos esclarecer, as incertezas.    

Autor: Aluísio Marçal de Barros Serodio, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).    

Citar como: Serodio AMB. Incertezas em saúde. Estudantes para as melhores evidências (EME) Cochrane. Disponível em: [adicionar link da página da web]. Acessado em [adicionar dia, mês e ano de acesso].  

Referências 

  1. Han PKJ, Klein WMP, Arora NK. Varieties of uncertainty in health care: a conceptual taxonomy. Med Decis Making. 2011;31(6): 828–838. doi:10.1177/0272989X11393976. 
  2. Lee C, Hall K, Anakin M, Pinnock R. Towards a new understanding of uncertainty in medical education. J Eval Clin Pract. 2021;27:1194–1204 
  3. Camerer C, Weber M. Recent developments in modeling preferences: uncertainty and ambiguity. Journal of Risk and Uncertainty. 1992; 5:325–370. 
  4. Greenhalgh T, Howick J, Maskrey N.  Evidence based medicine: a movement in crisis? BMJ 2014;348:g3725 doi: 10.1136/bmj.g3725 

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