Viés de Distorção (Spin Bias)

Publicado por 24 de Setembro de 2021 em

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A produção e divulgação de evidências clínicas confiáveis são etapas essenciais do processo de desenvolvimento de boas práticas no cuidado em saúde. É sabido que, para garantir a relevância prática de seus achados, os estudos clínicos devem ser planejados e conduzidos de maneira correta. No entanto, apesar de todas as medidas tomadas para aumentar sua qualidade metodológica, esses estudos ainda são suscetíveis a uma ampla gama de vieses que podem afetar negativamente a validade de seus resultados e prejudicar sua correta interpretação. 

 

Além dos cuidados para uma boa condução dos estudos clínicos, os pesquisadores devem ser honestos e transparentes ao relatar seus resultados para evitar interpretações errôneas que podem resultar em decisões clínicas inadequadas. Ainda se observa, porém, que os resultados dos estudos são frequentemente mal relatados, superestimando os achados positivos e subestimando os negativos, constituindo o que chamamos de spin bias ou viés de distorção.  

 

Definição de viés de distorção 

No ano de 2010, Boutron e colaboradores forneceram uma definição inicial deste tipo de viés como “estratégias específicas de relato, por qualquer motivo, para destacar que o tratamento experimental é benéfico, apesar de uma diferença estatisticamente não significante para o desfecho primário, ou para distrair o leitor de resultados estatisticamente não significantes”. 1 Publicações recentes expandiram o conceito com uma definição simples de viés de distorção como “a deturpação intencional ou não intencional dos resultados dos estudos”. 2 

 

Exemplos de viés de distorção 

Um estudo meta-epidemiológico publicado recentemente analisou a frequência de viés de distorção em ensaios clínicos sobre o uso terapêutico de derivados canabinoides no tratamento de diversas condições clínicas. 3 A frequência de viés de distorção entre os estudos com resultados estatisticamente não significantes para o desfecho primário foi de 44,4% (16/36). Foi realizada ainda uma análise qualitativa, que identificou algumas ações que resultaram na supervalorização do benefício das intervenções, incluindo: 

  • mudança de foco do artigo para desfechos secundários ou subgrupos de participantes 
  • desvio da análise estatística planejada 
  • falha em considerar a incerteza nas estimativas do efeito do tratamento.  

 

Alguns dos exemplos de distorção elencados no artigo são mostrados a seguir com trechos da análise estatística e da conclusão principal dos ensaios clínicos: 

 

Exemplo 1: traduzido do estudo de Levin 2011 4 

 

  • Análise estatística: “Para o desfecho primário, a proporção de pacientes que alcançaram duas semanas de abstinência contínua nas semanas 7 e 8, não foi encontrada diferença estatisticamente significante entre os grupos que receberam dronabinol (17,7%) e placebo (15,6%) (p = 0,69). 

 

  • Conclusão: “Em conclusão, a farmacoterapia de substituição com dronabinol, uma forma sintética do THC, mostrou-se promissora para o tratamento da dependência de cannabis, reduzindo os sintomas de abstinência e melhorando a adesão ao tratamento, embora não tenha conseguido melhorar a abstinência. 

 

  • Análise da distorção: o desfecho primário analisado pelo estudo não demonstrou diferença estatisticamente significante entre os grupos. No entanto, os autores desviaram a atenção para desfechos secundários, resultando em uma conclusão favorável à intervenção proposta. 

 

Exemplo 2: traduzido do estudo de Collin 2010 5 

 

  • Análise estatística: “Na análise por intenção de tratar, a mudança média de espasticidade encontrada no grupo intervenção foi uma diminuição de 1,05 ponto no score NRS, em comparação com uma diminuição de 0,82 ponto encontrada no grupo placebo. A diferença estimada em favor do grupo intervenção não foi estatisticamente significante (p = 0,219).” 

 

  • Conclusão: “Em geral, os resultados analisados por intenção de tratar não foram estatisticamente significantes. No entanto, a análise por protocolo mostrou que o Sativex, tomado como terapia adjuvante em conjunto com medicamentos anti-espasticidade já existentes, pode produzir melhorias clinicamente relevantes na espasticidade em uma proporção considerável de indivíduos com esclerose múltipla refratária. 

 

 

 

Exemplo 3: traduzido do estudo de Schimrigk 2017 6 

 

  • Análise estatística: “O desfecho primário, a alteração média da intensidade da dor comparada entre o grupo que recebeu dronabinol (1,92 ± 2,01; 30%) e o que recebeu placebo (1,81 ± 1,94; 27%), não foi estatisticamente significante (p = 0,6760). Da mesma forma, a avaliação da qualidade de vida mostrou uma clara melhora em ambos os grupos sem diferença estatisticamente significante.” 

 

  • Conclusão: “Embora a prova estatística de eficácia para o tratamento com dronabinol versus placebo esteja pendente, os médicos devem considerar os benefícios potenciais dos efeitos multifatoriais do dronabinol.” 

 

  • Análise da distorção: os autores relataram que o desfecho primário não foi estatisticamente significante, mas a conclusão foi favorável à intervenção proposta sem discutir a incerteza na estimativa de efeito do tratamento em questão. 

 

 

Tendo em vista a prevalência de viés de distorção em artigos científicos e os seus potenciais prejuízos à correta interpretação dos achados, é importante que a comunidade científica e os profissionais de saúde se atentem a maneiras de minimizar o impacto dessa prática. Os autores de estudos devem estar cientes dos malefícios do spin e direcionar suas conclusões apenas para o que foi planejado e analisado. Editores e revisores não devem negligenciar a existência do viés de distorção e devem adotar estratégias em seu processo de avaliação para mitigar essa ocorrência. Por sua vez,  leitores de artigos científicos, sobretudo aqueles que usam seus resultados e conclusões para informar a tomada de decisão ou para desenvolver diretrizes, precisam saber o que é o spin bias, seus tipos e como identificá-lo, de modo a evitar que suas recomendações se baseiem em conclusões falsas ou enviesadas. 

 

Se você quer aprender mais sobre viés de distorção, sugerimos acessar o Catálogo de Vieses do Centre of Evidence-based Medicine, da Oxford University, disponível em português em: https://oxfordbrazilebm.com/index.php/vies-de-distorcao/ 

 

 

Autor: Gabriel Cambraia Pereira  

Aluno de graduação do curso de Medicina, Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

 

 

Referências 

 

  1. Boutron I, Dutton S, Ravaud P, Altman DG. Reporting and interpretation of randomized controlled trials with statistically nonsignificant results for primary outcomes. JAMA 2010;303(20):2058–64 ; 26. [Quebra da Disposição de Texto] 
  1. Yavchitz A, Ravaud P, Altman DG, Moher D, Hrobjartsson A, Lasserson T, et al. A new classification of spin in systematic reviews and meta-analyses was developed and ranked according to the severity. J Clin Epidemiol 2016;75:56–65 JulEpub 2016 Feb 2. PMID: 26845744. doi:10.1016/j.jclinepi.2016.01.020.[Quebra da Disposição de Texto] 
  1. Pereira GC, Prates G, Medina M, Ferreira C, Latorraca COC, Pacheco RL, Martimbianco AL, Riera R. High frequency of spin bias in controlled trials of cannabis derivatives and their synthetic analogues: a Meta-epidemiologic study. J Clin Epidemiol. 2021 :S0895-4356(21)00269-9. doi: 10.1016/j.jclinepi.2021.08.024. Epub ahead of print. PMID: 34450305.[Quebra da Disposição de Texto] 
  1. Levin FR, Mariani JJ, Brooks DJ, Pavlicova M, Cheng W, Nunes EV. Dronabinol for the treatment of cannabis dependence: a randomized, double-blind, placebo-controlled trial. Drug Alcohol Depend. 2011;116(1-3):142-50. doi: 10.1016/j.drugalcdep.2010.12.010. Epub 2011 Feb 18. PMID: 21310551; PMCID: PMC3154755.[Quebra da Disposição de Texto] 
  1. Collin C, Ehler E, Waberzinek G, Alsindi Z, Davies P, Powell K, Notcutt W, O’Leary C, Ratcliffe S, Nováková I, Zapletalova O, Piková J, Ambler Z. A double-blind, randomized, placebo-controlled, parallel-group study of Sativex, in subjects with symptoms of spasticity due to multiple sclerosis. Neurol Res. 2010;32(5):451-9. doi: 10.1179/016164109X12590518685660. Epub 2010 Mar 19. PMID: 20307378.[Quebra da Disposição de Texto]  
  1. Schimrigk S, Marziniak M, Neubauer C, Kugler EM, Werner G, Abramov-Sommariva D. Dronabinol Is a Safe Long-Term Treatment Option for Neuropathic Pain Patients. Eur Neurol. 2017;78(5-6):320-329. doi: 10.1159/000481089. Epub 2017 Oct 26. PMID: 29073592; PMCID: PMC5804828. 

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